Acesso rápido

Destaque

Palavra do Presidente

Newsletter

Cadastre-se e receba nossos informativos online

Saúde e Nutrição

Relatório sobre a situação nutricional infantil

30/01/2009

Relatório sobre a situação nutricional infantil

Estamos nos alimentando muito com os alimentos errados e pouco dos certos. Esta posição é verdadeira para a população em geral, mas particularmente verdade para nossas crianças. Entre as 10 maiores fontes comprovadas de ingestão calórica são refrigerantes, sobremesas e pães, batatas fritas, sorvetes e salgadinhos. A gordura saturada toma conta de cerca de 12% das dietas infantis assim como quase o dobro da quantidade recomendada para açúcares adicionados, o que corresponde a 20% da ingestão calórica diária.

por Licinia de Campos, nutricionista

Em todos os grupos de crianças de 2 a 18 anos, a maioria não cumpre as necessidades diárias nutricionais. Alimentos que mostram declínio de consumo incluem leite, hortaliças e leguminosas (feijões) e alimentos com densidade nutricional como grãos integrais, oleaginosas (nozes, castanhas de caju e do Pará, etc) e folhosos verdes.

Bebês e pré-escolares

Dentre os grupos estudados, bebês e pré-escolares têm o melhor conteúdo nutricional nas suas dietas, basicamente devido ao leite ingerido por fórmulas/ materno e o conteúdo dos alimentos de introdução em alimentação como sopa de legumes.

As pesquisas mostraram que mais de 1/3 das crianças de idade de 7-24 meses não consomem uma porção de hortaliça ou fruta. Pouco mais de 10% consomem hortaliças folhosas verdes, o que conta pela falta de vitamina E em suas dietas. 46-52% consomem sucos de frutas, excedendo o tamanho de porção diária recomendada. As dietas das crianças que bebem mais do que as quantidades recomendadas de sucos de frutas mostraram ingestão inadequada de cálcio devido à diminuição do consumo de leite.

Pior ainda: quando a criança começa a ficar mais velha, a qualidade de sua dieta declina. O consumo de alimentos como batatas aumenta. Batatas fritas estão em 3º. lugar dentre as hortaliças mais consumidas em idades de 9 – 11 anos, em 2º. lugar para 12-14 anos e como mais consumida para idades de 15 anos e acima.

O consumo de sobremesas também aumentou em 10% nas crianças com idade de 6 meses para 91% nas com idade de 19 -24 meses. 12% destas crianças mais velhas consomem refrigerantes. Os salgadinhos de pacote respondem por cerca de 25% da ingestão calórida desta faixa etária por dia. Alimentos consumidos frequentemente como petiscos: bebidas à base de frutas, doces, salgadinhos e bolachas. Portanto, alimentos de baixo teor nutritivo respondem por ¼ das dietas destas crianças no estudo.

Idades entre 6-11

Menos da metade das crianças com idades de 6-11 anos consomem as porções recomendadas para grupo de crianças com 1 ano. 80% não cumprem as recomendações para hortaliças e 75% não cumprem as porções recomendadas para frutas. Entre este mesmo grupo de 6 – 11 anos, somente 29% das meninas e 40% dos meninos cumprem as porções recomendadas de produtos lácteos.

Adolescentes e acima

Quando as crianças atingem a adolescência, o estado de sua nutrição diária é pior. Este é um dado preocupante porque esta idade marca um período de crescimento comparável ao do primeiro ano de vida. Os adolescentes tendem a ganhar aproximadamente 50% da sua massa corporal adulta, 40-45% de sua massa óssea, e 15 a 20% de seu peso durante este período. Portanto, neste período crítico de crescimento, a ingestão nutricional está na pior fase de declínio.

As meninas se encontram em maior risco por não cumprimento das recomendações diárias nutricionais, especialmente com vista a folato, vitaminas A, E, C, B6 e cálcio. Menos da metade de meninas e meninos desta faixa etária cumpre a ingestão mínima de cada grupo alimentar, comparável à ingestão das crianças mais jovens, inclusive os 80% que não cumprem as recomendações de porções do grupo de hortaliças/ leguminosas. A adolescência está quase sempre acompanhada por uma notável queda em consumo de frutas e hortaliças.

Somente 12% das meninas e 30% dos meninos desta faixa etária consomem a recomendação diária de laticínios. A ingestão inadequada de cálcio durante este período crítico de crescimento pode levar à massa óssea inadequada e doenças mais tarde na vida como osteoporose.

O principal motivo da diminuição para o cálcio dietético desta faixa etária são bebidas adocicadas como as aromatizadas com frutas e refrigerantes. Nos últimos 40 anos aumentou-se o consumo de bebidas aromatizadas com frutas em 2 vezes e em 3 vezes os refrigerantes.

Atualmente estas bebidas representam 13% do consumo diária de calorias dos adolescentes e são a fonte maior para açúcares adicionados nas suas dietas. Os adolescentes consomem quase o dobro do limite diário recomendado para açúcares adicionados. Basicamente, quando as crianças crescem, seu consumo de leite diminui enquanto seu consumo de refrigerantes e bebidas doces aumenta.

Por que as crianças comem o que comem (ou não) – Influência dos pais na dieta

Há várias fontes de influências no comportamento alimentar das crianças. Genética exerce papel pequeno, influência dos pais e família, relacionamentos sociais, vizinhança, comunidades, instituições (escolas) influenciam em grande escala, assim como nível de cultura, sistema alimentar, econômico e de marketing.

Vamos começar com a mesma fonte básica de influência que a experiência infantil inicia, com os pais. Genéticamente e fisiologicamente, as crianças nascem com alguns hábitos alimentares tais como a habilidade em sentir fome, apetite e saciedade. As crianças também possuem a habilidade em sentir odores, visões e sabores dos alimentos, para nosso sistema responder aos sinais químicos dos compostos como insulina, glicose e peptídeos.

As preferências natas em sabor são limitadas, com o hábito mais comum sendo a aversão ao amargo, o que conta pela menor tolerância para hortaliças como brócolis, e uma forte afinidade por alimentos doces e gordurosos. As crianças parecem possuir uma preferência hereditária por alimentos doces, gordurosos e salgados enquanto evitam os sabores amargos e irritativos. São quase neofóbicos, ou medrosos de experimentar novos alimentos instintivamente. Em muitos casos, este hábito permanece por toda a vida adulta. A resposta dos pais a este cabedal de preferências em particular, tal como servir somente os alimentos que as crianças gostam de imediato ou alimentos que apelam somente por estas preferências pode fazê-las assimilar o consumo de preferências e de alimentos não saudáveis a longo termo.

O ponto mais interessante é que todos estes sinais, mesmo das preferências alimentares natas, podem ser alterados ou sobrepujados pelas influências, ambiental e psicológica. De fato, as pesquisas mostram que dentre todos estes fatores que influenciam as preferências alimentares, as preferências genéticas são as mais fracas.

Qual é a influência mais forte na preferência alimentar? Exposição ao alimento. Simplesmente colocado, a criança pode e irá aprender a gostar de alimentos saudáveis se seus pais forem persistentes. Ao contrário, se servida uma dieta limitada e não saudável, esta se tornará a preferência da criança.

Os estudos nutricionais mostram que a exposição repetida sobrepõe-se até mesmo às mais fortes preferências alimentares, o desejo por doces. Novas pesquisas sugerem que a experiência de um feto com sabores de alimentos no líquido amniótico pode ajudar a encorajar a aceitação e prazer por alimentos similares mais tarde. Esta é uma novidade encorajadora pois a gravidez é o único período da experiência maternal onde se tem controle total sobre a dieta da criança. Esta nova descoberta dá às mulheres todas as razões do mundo para manterem uma dieta saudável durante a gravidez.

A infância precoce é marcante como anos-básicos para as preferências alimentares da criança. De fato, muitas destas preferências e comportamentos alimentares são estabelecidos precocemente na idade de 2 anos, com poucas destas preferências mudando mesmo após os próximos 5 anos. Na verdade, o número de alimentos que uma criança gostará aos 8 anos pode ser prevista no número de alimentos que consome na idade de 4. Mesmo na idade de 4 anos, contudo, algumas das preferências alimentares são por alimentos não introduzidos pelos pais. Acima da idade de 2 anos, as influências externas começam a tomar corpo.

No primeiro ano, a hora da alimentação é componente central do relacionamento pais-crianças, uma experiência compartilhada que não somente nutre, mas estabelece confiança e senso de segurança. Quando se introduz os alimentos de mesa, e quando as crianças de idade de 1 -5 anos experimentam rápido desenvolvimento intelectual e físico, os comportamentos e preferências alimentares passam desta dependência completa para a necessidade de mais controle. Esta fase em particular pode ser a base de estreitamento poderoso com a mesa, com tudo a ver com controle e nada a ver com alimentos.

Esta independência recente está associada com o estabelecimento de comportamentos alimentares. Há medo de qualquer coisa nova, a neofobia. Melhor conhecida dos pais é a vegafobia. O próximo passo é a tendência a provar somente certos alimentos. E, talvez o mais estranho de todos, a ansiedade criada por ter alimentos no mesmo prato se tocando. Para solucionar estas fobias: resistência e perseverança. Quem disse que paternidade é fraqueza? Os pais devem estar prontos para a batalha.

É uma batalha de centímetros, uns poucos centímetros em um dia para no seguinte voltar à estaca zero. O objetivo é uma linha final bem longa, e nos entrementes tudo que se pode fazer é tentar e manter dieta balanceada com eles no decurso da semana. O motivo das crianças não gostarem de uma determinada hortaliça, com frequência não tem nada a ver com a própria. Entre estes motivos há a sensibilidade nata ao gosto amargo, preparações insossas, ou condutas negativas ligadas ao alimento como no clássico “Se não comer seu legume, não terá sobremesa.”

Em contexto posterior, o alimento-alvo se torna um obstáculo no caminho do desejo, não um bom contexto. Nesta altura, o pai (ou mãe) está condicionando a criança a desgostar ainda mais daquela hortaliça. O encorajamento saudável para tentar novos alimentos sem punição ou um contexto controlado, mais o ambiente positivo nas refeições são ingredientes-chaves para fazer crescer um consumidor saudável.

Outro ingrediente-chave para resolver a situação é a persistência e uma despensa bem planejada. Em um estudo, crianças foram expostas 10 vezes ao dia ao sabor de uma nova hortaliça, pimentão vermelho. O estudo mostrou que a frequência da exposição direcionou ao aumento do gostar e consumir a hortaliça. Resultados semelhantes foram vistos quando a mesma hortaliça foi apresentada a um grupo de crianças uma vez por dia durante 14 dias consecutivos. Parece um desafio imaginar 14 pratos, ou mesmo 10 diferentes maneiras de colocar pimentão vermelho em um prato sem inclui-lo em todos eles mais nas sobremesas. Logicamente, os pais não precisam ser chefes de cozinha de plantão, mas a criatividade e um pouco de pesquisa das várias maneiras de preparar o alimento focado, pode tornar as coisas mais fáceis, e mesmo um desafio em cozinhar, agradável para os pais – se gostarem de cozinhar.

Finalmente, o mais importante dos ingredientes é a pessoa que acompanha a criança, sejam os pais, sejam professores, sejam monitores. De fato, o mais forte predisponente para o consumo de frutas e hortaliças pelas crianças com idades entre 2 a 6 anos é a quantidade destes alimentos consumidos pelos pais. Faz sentido. Por que uma criança iria querer consumir um alimento que ninguém mais quer comer? Quem acompanha a criança, sim, tem de comer suas hortaliças também. Esta regra-modelo é importante, tanto para o aprendizado direto, “esta é a maneira que comemos”, como para a regra-modelo indireta, “novos alimentos são uma aventura divertida, é saudável comer bem, e estes alimentos são agradáveis.”

É claro que para modelar o bom comportamento alimentar, a família deve reunir-se para comer com suas crianças. As refeições familiares são importantes tanto por razões nutricionais quanto sociais. Numerosos estudos demonstraram que as refeições familiares regulares em casa estão associadas com dietas mais saudáveis e a tendência das crianças em se realizarem melhor com menos tentativas em drogas e álcool. Importante: se os pais estão mantendo uma dieta saudável, significa que os alimentos disponíveis em casa incluam escolhas saudáveis. As crianças são ótimas como audiência cativa, ao menos nos primeiros anos de vida. Aprendem a comer o que está disponível em casa – mesmo se não for seu favorito.



Referências bibliográficas:


1. SANNER, Sylvia Elisabeth – “A obesidade infantil já atinge cerca de 10% das crianças brasileiras” – 2000-2008 – Bibliomed Inc.

2. CAVALCANTE, A.A. M. – “Consumo alimentar e estado nutricional de crianças atendidas em serviços públicos de saúde do município de Viçosa, MG” – Revista de Nutrição, vol 19, no. 3, Campinas, 2006.

3. MALUF, Renato – “Consumo de alimentos no Brasil: traços gerais e ações públicas locais de segurança alimentar”. FNECDC – Fórum Nacional de Entidades Civis de Defesa do Consumidor – disponível em www.polis.org.br

4. NOVAES, Ana Paula Toneto – “Desnutrição – uma visão mais ampla” – 5ª. Mostra Acadêmica – UNIMEP – Universidade Metodista de Piracicaba – 2007.

5. AMODIO, Martha F. P. – “Como conciliar cantina escolar, produtos industrializados e alimentação saudável” – Congresso Brasileiro de Alimentação Infantil – disponível no site www.nutrociencia.com.br

6. DIAS, G.A.B., SOUZA, I.S. – “Alimentação saudável: qualidade de vida, rendimento escolar”. Centro Universitário Leonardo da Vinci – Curso Biologia – 2007.



Voltar »

Marketing Institucional Educativo

Campanhas

Veja mais »

Caminho do Leite

Veja mais »

Revistas e Informativos

Veja mais »