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Você sabe que produtos lácteos podem reduzir o risco de certos tipos de câncer?

LEITE E DERIVADOS E REDUÇÃO DA INCIDÊNCIA DE CÂNCER


Licinia de Campos,. Nutricionista


Câncer é uma classe de doenças ou desordens caracterizadas pela divisão celular sem controle e a habilidade destas células em invadir outros tecidos, tanto pelo crescimento direto nos tecidos adjacentes quanto pela invasão ou implantação em outras áreas do organismo.

Existem numerosos e diferentes tipos de câncer e podem afetar quase todo órgão e tecido no organismo. Embora de incidência mundial, as formas mais comuns de câncer são os de mama, colorretal e próstata.

A maioria do câncer pode ser tratada e sua cura depende do tipo, localização e estágio. Todos eles se iniciam pelo dano ao DNA (material genético encontrado dentro de cada célula), conduzindo a mutações nos genes, que depois resultam em produção e proliferação anormal das células. Algumas mutações genéticas são inatas (devido ao histórico familiar de certos tipos), mas a maioria ocorre e se acumula com o tempo como resultado de exposição a diversos fatores como estilo de vida e meio-ambiente, ou dieta, fumo, alcóol, radiação, poluentes industriais e certas viroses. Mesmo sabendo que alguns destes fatores de risco podem ser evitados ou reduzidos, não há ainda maneira conhecida de evitar a doença e muito ainda permanece por ser descoberto, em como a complexa interação destes fatores podem conduzir ao desenvolvimento de câncer.

Quando diagnosticado, o câncer geralmente é tratado com combinação de cirurgia, quimioterapia e radioterapia e com o desenvolvimento das pesquisas, os tratamentos se tornaram mais específicos ao tipo do câncer. Se não tratado, pode causar morte, embora este não seja sempre o caso.

Leite, laticínios e redução da incidência de câncer

Câncer de cólon/ colorretal: vários estudos investigaram o papel protetor dos laticínios e seus nutrientes como cálcio e vitamina D contra o câncer colorretal, o 3º. tipo mais comum de câncer, tanto em homens quanto em mulheres. Em experimentos em animais e “in vitro”, o cálcio e/ou a vitamina D demonstrou reduzir os marcadores do risco aumentado para câncer de cólon (hiperproliferação de células epiteliais colônicas) ou tumores induzidos por carcinógenos. Estes tipos de estudos também sugerem mecanismos plausíveis tais como a habilidade do cálcio dietético em se ligar e inativar as substâncias carcinógenas tais como sais biliares secundários e ácidos graxos livres no lúmen do intestino.

Achados dos estudos epidemiológicos geralmente dão suporte ao efeito protetor do cálcio, vitamina D e produtos lácteos contra o câncer colorretal. Quando pesquisadores examinaram as associações entre ingestão de cálcio e vitamina D por alimentos e suplementos dietéticos e o risco de câncer colorretal em populações multi-étnicas de mais de 85.000 homens e 105.000 mulheres, moradores do Havaí e de Los Angeles, Califórnia, concluíram que o cálcio, a vitamina D e produtos lácteos estavam associados com a diminuição de risco para câncer colorretal. O mais alto quintil da ingestão total do cálcio
(>611mg/1.000kcal/dia) foi associado com 30% de redução de risco de câncer colorretal em homens e 36% em mulheres. A redução de risco para câncer colorretal foi demonstrada pela ingestão total (da dieta e de suplementos) de vitamina D em homens, mas não em mulheres. O efeito protetor dos produtos lácteos, fonte rica em cálcio e vitamina D, foi observado tanto em homens quanto em mulheres.

O cálcio por si só ou em combinação com a vitamina D demonstrou ser inversamente associado com o câncer colorretal ou pólipos colorretais. Com respeito à vitamina D, os resultados de uma meta-análise de 5 estudos exploratórios dos níveis séricos em vitamina D e risco do câncer colorretal mostrou que os níveis maiores em vitamina D foram associados com a diminuição de 50% do risco deste tipo de câncer. Os pesquisadores recomendam ingestão diária da vitamina D3 de 1000 a 2000 U.I para redução da incidência deste câncer (3 porções de leite fortificado com vitamina D fornecem 300 U.I.).

O segundo relatório da WCRF/AICR* concluiu que “o leite provavelmente protege contra o câncer colorretal”. Esta conclusão foi baseada nas razoáveis evidências consistentes dos estudos cortes, apoiada nas fortes evidências de estudos sobre o cálcio dietético e seus mecanismos plausíveis. O Relatório graduou as forças evidentes em até 5 categorias: convincente, provável, limitada (limitada-sugestiva e limitada não-conclusiva) e “efeito substancial em risco não similar”.

Outro suporte adicional para o efeito protetor do leite e do cálcio contra o câncer de cólon é fornecido pelas conclusões de meta-análises de mais de 26000 casos deste tipo de câncer em 60 estudos epidemiológicos. O aumento da ingestão de leite reduz o risco de câncer de cólon em 22%, ao passo que tem pouco efeito no risco de câncer retal. Comparando ingestões maiores e menores de cálcio, o risco de câncer de cólon e reto foi reduzido em aproximadamente 25 a 45%. Baseado em estudo recente, os pesquisadores sugeriram que em se seguindo os Guias Dietéticos Alimentares do USDA, a DASH (dietary approaches to stop hypertension) ou os padrões da Dieta Mediterrânea, se pode reduzir o risco de pólipos colorretais. A ingestão diária recomendada por estes planos é: no mínimo 3 porções para o Guia USDA; no mínimo 2 porções para o plano alimentar DASH, e menos que 1,6 porções para os padrões dietéticos da dieta Mediterrânea.

Câncer de mama: é o mais comum diagnosticado entre mulheres americanas e é o segundo depois do câncer de pulmão como causa de mortes por câncer entre mulheres. Embora os dados com experimentos em animais indiquem que os componentes alimentares lácteos possam reduzir o risco de câncer de mama, os estudos epidemiológicos quantificaram resultados inconsistentes. Uma revisão de 46 estudos de controle de casos e estudos coortes e 9 estudos de controle de casos não encontraram associação consistente entre a alta ingestão de produtos lácteos, integrais ou estratificados, de acordo com o teor alto ou baixo em gorduras lácteas. A revisão de estudos prospectivos não encontrou associações significativas consistentes ou estatisticamente entre os vários fatores dietéticos, incluindo o consumo de lácteos e vitamina D com o câncer de mama, exceto na ingestão de bebidas alcóolicas, sobrepeso e ganho de peso.

Alguns estudos sugerem até mesmo que o consumo de laticínios ou cálcio pode na verdade proteger contra o câncer de mama. Pesquisas realizadas pela Sociedade de Câncer dos EUA concluíram que altas dosagens tanto de cálcio dietético quanto de laticínios pobres em teor de gorduras estão associadas com risco moderado de desenvolvimento de câncer de mama. Também o consumo de no mínimo 2 porções de laticínios por dia foi associado com a diminuição de 19% ao risco de câncer de mama quando comparado com 1 ½ porções ou menos.

O efeito benéfico do cálcio e da vitamina D, ou de laticínios no risco de câncer de mama parece ser maior nas mulheres prémenopausa do que pósmenopaus e mais protetor contra tumores agressivos ou avançados. Cálcio e vitamina D, independentemente ou combinados, podem reduzir o risco de câncer de mama, pelo menos entre as mulheres prémenopausa, por seus efeitos na densidade mamográfica, um forte fator de risco para câncer de mama.

Uma análise conjunta de estudos observacionais concluíu que a ingestão de 2000 UI de vitamina D2 e exposição bem moderada à luz solar (cerca de 12 minutos/ dia) pode aumentar a vitamina D circulante em nível associado com 50% de redução na incidência de câncer de mama. Embora a vitamina D dietética possa reduzir modestamente o risco de câncer de mama, a heterogeneicidade dos achados levantou muitas questões em relação à fonte dietética de vitamina D, status de menopausa e porcionamento do status da vitamina D.

Na verdade, ainda são necessários mais estudos para confirmar os efeitos protetores potenciais dos laticínios e seus nutrientes tais como cálcio e vitamina D no câncer de mama.

Câncer de próstata: é o tipo de câncer mais comumente diagnosticado e o segundo (após o câncer de pulmão) em liderança nas mortes por câncer entre os homens. Os resultados de estudos epidemiológicos na relação entre laticínios e seus nutrientes tais como cálcio e câncer de próstata são inconsistentes, com estudos demonstrando-se positivos ou sem associação. O Estudo em Saúde e Dieta da Associação Americana de Aposentandos dos EUA, um estudo prospectivo de 6 anos, em mais de 290000 homens, não encontrou associação entre a ingestão de cálcio e câncer de próstata total ou não-avançado.

Os estudos inconsistentes relacionados aos laticínios, seus nutrientes e câncer de próstata podem ser explicados pelo agrupamento de todos os cânceres de próstata (não avançado e avançado) em um só bloco e por outras variáveis como o nível de ingestão em cálcio ou de laticínios. A associação inversa entre ingestão de cálcio/ laticínios e câncer de próstata parece diferir conforme a agressividade do tumor, com as associações mais fortes observadas em tumores agressivos ou avançados em relação ao total de câncer de próstata. Também, o risco maior de câncer de próstata foi associado com alta ingestão de cálcio (> 1500mg/dia), ultrapassando as recomendações dietéticas atuais.

O mecanismo proposto para explicar esta associação entre a alta ingestão dietética de cálcio e câncer de próstata é que o cálcio dietético inibe a produção de 1,25-dihidroxivitamina D (calcitrol) da 25-dihidroxivitamina D, que pode aumentar a proliferação celular na próstata. A vitamina D pode ser mais protetora nos estágios mais agressivos que nos não-agressivos.
Também ainda é desconhecido o nível otimizado de vitamina D protetora contra o câncer de próstata.

Componentes dos laticínios e menor risco de câncer

Os componentes dos laticínios como cálcio e vitamina D podem ter efeito protetor contra certos tipos específicos de câncer. Aumentando-se o nível de cálcio e vitamina D da dieta, demonstrou-se reduzir o risco de todos os tipos de câncer, de acordo com um experimento de 4 anos, randomizado, com controle de placebos, realizado entre 1179 mulheres pósmenopausa. Uma conferência recente sobre vitamina D e câncer apresentou evidências de um mecanismo biológico para o papel da vitamina D na prevenção dos cânceres de cólon, mama e também o de próstata. Estudos epidemiológicos prospectivos sugerem que o status adequado em vitamina D está associado com o risco reduzido de câncer colorretal, mas as conclusões em relação à mortalidade total por câncer são inconsistentes.

Outros componentes dos laticínios, inclusive o ácido linoléico conjugado (CLA), ácido butírico, esfingolipídeos, proteínas e seus peptídeos e os probióticos podem contribuir para o efeito protetor prospectivo observado nos laticínios contra o câncer. Numerosos estudos, basicamente “in vitro” e em experimentos animais, demonstraram que o CLA (mistura de isômeros ou isômeros individuais) tem efeito anticarcinogênico em vários locais, incluindo na glândula mamária, cólon, próstata e pele. O leite, a manteiga, o iogurte e o queijo contêm quantidades consideráveis de CLA. Além do mais, 90% do CLA dos laticínios é constituído pelo isômero biologicamente ativo cis-9, trans-11. De acordo com uma revisão recente dos isômeros individuais do CLA, em todos os tipos de câncer testados, o isômero cis-9, trans-11, reduziu o desenvolvimento do câncer na maioria dos estudos, com nenhuma incidência em outros. Como o CLA é um componente da gordura, os produtos lácteos ricos em gorduras tais como leite integral, queijo e manteiga possuem maior teor em CLA que os desnatados ou semi. A gordura do leite também contém ácido butírico, que demonstrou inibir o câncer em estudos “in vitro” e experimentos em animais.

Leite e seus derivados são boas fontes de esfingolipídeos, um grupo complexo de lipídeos com atividade biológica. Os esfingolipídeos estão presentes principalmente nas membranas celulares, mais que nas micelas. Assim, não há correlação entre o teor em gordura dos laticínios e seu teor em esfingolipídeos. Embora não haja investigações em humanos, as conclusões dos estudos “in vitro” e experimentos em animais sugerem que os esfingolipídeos são ingredientes potencialmente anticarcinogênicos.

Certas proteínas do leite e seus peptídeos foram propostas como tendo efeitos anticarcinogênicos. Também, os probióticos (microrganismos vivos que conferem benefícios para a saúde) tais como a bactéria ácido lática em laticínios fermentados ou portadores de culturas (ex: iogurte) podem reduzir o risco de alguns tipos de câncer como os de cólon e de mama.

CONCLUSÃO

Embora as conclusões científicas emergentes dêem suporte ao papel protetor para o leite e seus nutrientes, tais como cálcio e vitamina D, em câncer colorretal, os estudos relacionados ao câncer de mama e de próstata ainda não são conclusivos.

As recomendações atuais para evitar câncer pregam bons hábitos e manutenção de peso corporal saudável, ser fisicamente ativo, consumir uma dieta saudável com ênfase em alimentos de origem vegetal e limitar o consumo de alimentos densos em energia e bebidas alcóolicas. As recomendações dietéticas para evitar o câncer não restringem a ingestão de leite e derivados. Ao contrário, é reconhecido como uma importante fonte de nutrientes como cálcio e vitamina D, que podem ter efeitos benéficos no câncer, particularmente no câncer colorretal. Para evitar o câncer colorretal, a Sociedade de Câncer Americana recomenda que tanto homens quanto mulheres consumam níveis recomendados de cálcio (1000mg/dia para pessoas de 19 a 50 anos e 1200mg/dia para idosos acima dos 50 anos), principalmente de fontes alimentares como produtos com baixo teor em gordura ou desnatados. A Sociedade também encoraja a ingestão adequada em vitamina D através de uma dieta balanceada, suplementação, e pequenas quantidades de exposição ao sol, especialmente à radiação ultravioleta.

O Relatório dos Especialistas do WCRF/AICR* não preconiza modificações nos Guias Dietéticos, que recomendam o consumo diário de 3 porções de leite, queijo ou iogurte com baixos teores em gorduras. Também, seu relatório não faz recomendações públicas a respeito do consumo de leite e derivados. Contudo, o relatório recomenda o atendimento das necessidades nutricionais através da dieta somente.


Referências bibliográficas:

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12. Dairy Council Digest. Dairy Foods and Cancer Prevention. Vol 79, no. 1, 2008.





* Licinia de Campos Graduada em Nutrição (Universidade São Judas Tadeu) com formação autodidata em Gastronomia; pós-graduada em Gestão de Negócios de Serviços de Alimentação (SENAC); curso de especialização em Docência e Didática para Ensino Superior em Turismo e Hotelaria (SENAC); curso de Auditor Líder ISO 22000 (Food Design); ex-redatora do Suplemento Feminino do jornal “O Estado de SP”; Seminário de Antropologia Alimentar : “Alimentation et hiérarchies sociales et culturelles” pelo IEHCA em Tours, França; participante do programa “Com Sabor” da Rede Mulher por 3 anos; tradutora de diversos fascículos e livros para a Editora Globo; consultora gastronômica- nutricional do site SIC (Serviço de Informação da Carne); palestrante especializada em Gastronomia e Nutrição; redatora da revista NutriNews ; docente em vários cursos das unidades SENAC ; Consultora e Assessora Especializada em Gestão Operacional Administrativa de Unidades Alimentares.





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